Morte de cão em SC gerou reações nas redes; lacunas no caso impulsionam boatos e a desinformação
Jovens cometeram atos infracionais análogos ao crime de maus-tratos, e a polícia solicitou a internação provisória do adolescente apontado como agressor de Orelha

A morte do cão Orelha completa um mês esta semana. A investigação da Polícia Civil de Santa Catarina concluiu, na última terça (3), que os jovens envolvidos nos ataques a dois cães cometeram atos infracionais análogos ao crime de maus-tratos e solicitou a internação provisória do adolescente apontado como agressor de Orelha. O caso mobilizou a internet, com pedidos de justiça e manifestações em diferentes capitais do país.

Mesmo ao longo do período de perguntas em aberto sobre o caso, usuários acompanharam e reagiram em tempo real às notícias.

Carregada de emoção e revolta, a avalanche de postagens fez surgir boatos e narrativas paralelas em relação aos dados divulgados pelas fontes oficiais.

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Neste contexto, não é apenas a procura por justiça que está em jogo, mas também o alívio de dizer o que se pensa. O problema acontece quando se expressar nas redes passa a ser dizer o que se pensa “doa a quem doer”.

É o que especialistas definem como “vigilantismo digital”. Isso não acontece à toa e pode ser explicado pela ciência: diante de uma atrocidade (como a morte violenta de um cão), o cérebro humano entra em estado de alerta e exige respostas rápidas para perguntas nem sempre simples: “De quem é a culpa?”, “Por que isso aconteceu?”, “Quem será punido?”. 

O caso se tornou um “fenômeno midiático”, e é justamente em momentos assim – carregados de reações instantâneas – que a desinformação se espalha.

Para entender isso na prática, é fundamental compreender o contexto. Vivemos em um caos informacional – um estado de desordem generalizado, caracterizado pela saturação, fragmentação, descontextualização e disseminação descontrolada de informações, muitas vezes falsas ou enganosas, o que dificulta a distinção entre o que é verdadeiro e falso.

Para evitar que desinformações sejam produzidas em momentos de revolta, além de priorizar ações racionais antes de publicar suas opiniões nas redes, é importante identificar quando estamos diante de situações de vigilantismo digital. Estas são algumas das características deste fenômeno:

1. Indignação viral

O caos informacional é alimentado por emoções intensas (raiva, medo, euforia). A morte violenta de um cachorro é um gatilho para muitos dos usuários, que inconformados, vão às redes para se manifestar.

Mesmo sem entender a situação em seus detalhes – muitas vezes por ter acabado de acontecer – formulamos e publicamos nossa opinião. O que está em jogo é uma tentativa de se afastar de incertezas e de se incluir no debate buscando um pertencimento junto aos demais, seja defendendo ou atacando os envolvidos no caso.

Para muitos usuários, mais do que aprofundar ou entender o caso, o importante é comentar e se posicionar sobre ele. Foto: Reprodução.

Como consequência, o número de conteúdos sobre o tema aumenta, o que é percebido pelos algoritmos, e amplificado por eles, furando bolhas, chegando a mais pessoas e se tornando viral. Em resumo, a velocidade da reação supera a veracidade dos fatos.

2. Busca pelo culpado

A busca pelo culpado resulta em ações de linchamento virtual – quando usuários procuram os perfis dos envolvidos, para atacá-los; e na exposição de sua privacidade. No caso Orelha, imagens dos quatro adolescentes inicialmente suspeitos foram divulgadas por milhares de perfis em redes como Facebook, Instagram e X.

Posts expondo imagens viralizaram nas últimas semanas. Foto: Reprodução.

A prática viola o Art. 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo absoluto nos procedimentos envolvendo pessoas abaixo de 18 anos. A Polícia Civil de Santa Catarina não divulgou nomes, idades e localização dos suspeitos nem dos familiares, e descartou o nome de um dos jovens, que agora responderá como testemunha do caso.

No entanto, até a polícia cruzar dados e álibis para excluir o suspeito, a foto deles já havia sido amplamente compartilhada como “os assassinos” – o que pode provocar danos físicos e psicológicos irreversíveis.

Com informações fragmentadas e por vezes contraditórias, usuários interpretam o caso e ditam a sentença e a punição a serem exercidas sobre os supostos culpados, o que transforma as redes em verdadeiros tribunais. Antes que a própria polícia e os órgãos responsáveis formulem conclusões, a reputação dos supostos envolvidos já foi destruída.

3. Falsa associação e viés de confirmação 

Com a notícia real, surgiram fotos de outros cachorros, vídeos antigos fora de contexto e produzidos por IA, dificultando a identificação do que são fatos atuais e o que é antigo.

O caso também incentivou diversos jornais a abordarem como a violência contra animais é incentivada em redes digitais, a exemplo do Discord.  O consumo desses conteúdos – muitas vezes feito de forma fragmentada, em cortes e apenas com a leitura das manchetes –, levou muita gente a uma associação precipitada e que rapidamente se espalhou: a afirmação do Discord como espaço onde o crime contra o cão Orelha teria sido planejado ou estimulado.

Mesmo que a ligação esteja descartada pela polícia até o momento, a associação se espalhou nas redes, favorecendo o que chamamos de “viés de confirmação” – tendência de buscar, interpretar e valorizar informações que confirmem crenças preexistentes, ignorando dados contrários, ainda que baseados na realidade.

Usuários passaram a associar relação direta entre Discord e crime de tortura animal cometido pelos adolescentes em Praia Brava (SC)

Ao ser mencionado, o termo “Discord” foi associado a imaginários como jovens, violência e internet. Isso fez com que a falta de explicações sobre o caso fosse preenchida por narrativas alternativas. Discord + jovens + violência + internet = ações extremistas em fóruns online e apps de mensagem. De fato, a combinação é frequente, mas não significa que todos os crimes tenham esta origem.

4. Polarização moral: justiçamento X cumplicidade 

Outro foco de ruído informacional no caso envolve um porteiro do prédio onde mora um dos jovens suspeitos. A polêmica surgiu quando áudios divulgados pelo funcionário circularem em grupos de WhatsApp descrevendo os adolescentes como “marginais” e mencionando as agressões. Usuários das redes e ativistas da causa animal acusaram o porteiro de omissão, sob o argumento de que se o mesmo sabia da violência e não interveio, passaria a ser cúmplice do crime.

O resultado foi uma onda de ataques digitais e pedidos de demissão do funcionário. Até esta semana, as investigações da Polícia Civil indicam que o homem foi vítima de coação por familiares dos adolescentes. No final do mês passado, o trabalhador foi afastado de suas funções no condomínio.

Mesmo com as investigações em curso, a neutralidade ou a cautela do porteiro em falar do caso é lida como conivência.

5. Empatia temporária

Assim como a reação e a revolta são quase instantâneas à realização dos acontecimentos, também é rápida a velocidade do esquecimento sobre o que aconteceu.

Com um fluxo intenso de conteúdos circulando, em poucas semanas novos fatos surgem nos noticiários e nas redes, fazendo com que tanto a cobertura da imprensa quanto a mobilização nas redes caia drasticamente. Neste aspecto, a imprensa tem forte influência e responsabilidade, sendo estratégica para fomentar ou anular temas de interesse público. Um mês depois, a internet já encontrou um novo vilão ou um novo meme para pôr no centro do debate.

Depois do crescimento no final de janeiro, termo “Orelha” teve queda de busca no Google. 

6. Cada um com a sua “versão”

No meio do caos de cortes, pequenos vídeos, tweets, matérias jornalísticas e post de páginas de fofoca, a realidade factual se mistura com a ficção ou a distorção. No final, cada usuário tem a sua própria história do caso, a sua “própria verdade” – conceito que especialistas definem como ‘pós-verdade’ (1) (2).

A consequência é que passa a ser mais importante para cada um confirmar aquilo que já acredita ou deseja acreditar do que se deparar com a realidade dos fatos concretos – daquilo que já foi comprovado ou rechaçado pela polícia ou pela Justiça.

Cada um acredita no que seu viés já pressupõe, e a verdade factual torna-se apenas um detalhe inconveniente.

 

Por Victor Terra – Lupa

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Foto de Autor: Luiz Cláudio Fernandes
Autor: Luiz Cláudio Fernandes

Jornalista, escritor, professor e produtor cultural com 18 anos de experiência no ramo da Comunicação. Doutorando em Comunicação (PPGCOM/UFPA), mestre em Comunicação (PPGCOM/UFPA), especialista em Educação para Relações Étnicorraciais (IFPA). Pesquisador(a) nas áreas de Comunicação e Política, com foco em desinformação, populismo de direita radical, colonialidades e discursos de ódio racial.

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