Desinformação política: como o discurso político transforma fatos em narrativa
Hoje, a briga política já não é só por poder, mas por definir o que é 'verdade'

Presidente dos EUA Donald Trump participa de uma chamada com militares estadunidenses de seu clube Mar-a-Lago, na Flórida, no Dia de Ação de Graças, em 27 de novembro de 2025, em Palm Beach, Flórida. | Crédito: Pete Marovich/Getty Images/AFP

Em tempos de redes sociais, inteligência artificial e notícias que circulam em segundos, a disputa política deixou de acontecer apenas nas urnas ou nos parlamentos. Hoje, ela acontece também – e talvez principalmente – no campo da interpretação. A briga já não é só por poder, mas por definir o que é verdade.

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A desinformação se tornou um dos maiores desafios das democracias contemporâneas. Não se trata apenas de notícias falsas espalhadas por engano. Estamos diante de estratégias extremamente bem organizadas, que usam versões distorcidas da realidade para mobilizar emoções, reforçar identidades e conquistar apoio político.

Um exemplo emblemático está nas declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Venezuela. Ao longo dos últimos anos, Trump construiu uma narrativa em que o país vizinho aparece como ameaça, caos e inimigo externo — uma peça central em seu discurso de força, ordem e proteção dos norte-americanos.

A desinformação vai além da mentira

Costumamos pensar em desinformação como sinônimo de mentira. Mas o fenômeno é mais complexo. Ele pode aparecer de diferentes formas:

  • Quando alguém compartilha algo falso sem saber que é falso (erro).
  • Quando se usa um fato verdadeiro fora de contexto para induzir uma conclusão equivocada.
  • Quando se inventa deliberadamente uma informação para confundir ou manipular propositalmente.

O problema é que, na era digital, a velocidade da circulação é tão grande que conteúdos duvidosos ganham aparência de verdade antes mesmo de serem verificados. Números impactantes, frases de efeito e imagens fortes se espalham mais rápido do que análises cuidadosas.

Além disso, as plataformas digitais utilizam algoritmos que priorizam o que gera engajamento. E nada engaja mais do que medo, indignação e sensação de ameaça.

O caso da Venezuela: narrativa de ameaça e salvação

Em um conjunto de declarações de Donald Trump que analisei por meio da Análise de Conteúdo (Bardin, 2016), o presidente dos Estados Unidos afirmou que ações militares contra a Venezuela teriam salvado milhares de vidas nos EUA ao impedir a entrada de drogas. Também declarou que a Venezuela representava um risco direto à segurança norte-americana, e que medidas como o fechamento do espaço aéreo seriam necessárias.

Alguns desses números não foram sustentados por evidências confiáveis. Reportagens do The New York Times apontaram que o papel da Venezuela no tráfico de drogas para os Estados Unidos era menor do que o discurso sugeria.

Mas, mais do que checar se cada dado é verdadeiro ou falso, é importante entender como essas declarações funcionam. Elas criam uma narrativa simples e poderosa:

  • De um lado, os EUA como “protetores” da liberdade.
  • Do outro, a Venezuela como símbolo de desordem e ameaça.

Essa divisão entre “bem” e “mal” é típica do discurso populista contemporâneo (Fernandes, 2025; Mudde, 2022). O mundo é organizado em polos opostos, e o líder se apresenta como aquele que enfrenta o “inimigo” em nome do povo.

A política como disputa de sentidos

A semiótica — área que estuda como os sentidos são construídos — ajuda a entender esse processo. Segundo o pesquisador semiologista Paolo Demuru (2024), a verdade não é algo que simplesmente “está lá”, pronta e intocável. Ela é construída socialmente, disputada e defendida.

Isso não significa que tudo é relativo ou que fatos não importam. Significa que, para que algo seja reconhecido como verdadeiro, precisa ser narrado de forma convincente, fazer sentido dentro das crenças e emoções das pessoas.

Quando Trump fala em “salvar vidas”, “fechar o espaço aéreo” ou “restaurar a democracia”, ele não está apenas descrevendo ações. Está construindo uma história em que os Estados Unidos aparecem como heróis e a Venezuela como vilã.

Essa lógica também se conecta ao que o filósofo Michel Foucault (2000) chamou de disputa pelos regimes de verdade: cada época define quais discursos são aceitos como legítimos e quem tem autoridade para falar.

 

Quadro 1: Resumo da análise semiótica das declarações de Donald Trump.

Resumo da análise semiótica das declarações de Donald Trump
  1. Os discursos políticos não se limitam a relatar fatos, mas produzem versões específicas da realidade que favorecem interpretações hegemônicas (controle, segurança, legitimidade).
  1. A desinformação pode se manifestar por meio de declarações que aliam retórica de crise, números não verificados e metáforas de ameaça, criando regimes de veridicção que funcionam como dispositivos de poder.
  1. A construção de sentido sobre questões geopolíticas envolve operações simbólicas complexas, como normalização de dominação, uso de temporalidades performativas e metáforas que reforçam identidades e hierarquias.

Fonte: Elaboração própria (2025).

Emoção acima da evidência

Um ponto central da desinformação política atual é que ela não depende apenas de argumentos racionais. Muitas vezes, o que move a adesão é a identificação emocional.

Teorias conspiratórias, por exemplo, oferecem explicações simples para problemas complexos (Fernandes, 2025). Elas apontam culpados claros, reforçam o sentimento de pertencimento e dão a impressão de que o seguidor “descobriu” uma verdade escondida.

Nesse cenário, a ausência de provas pode ser reinterpretada como prova da conspiração. Se não há evidência, é porque “estão escondendo”.

O papel do jornalismo

Diante disso, qual é o papel do jornalismo? Não basta apenas checar fatos — embora isso continue sendo essencial. É preciso também disputar narrativas. Explicar contextos, mostrar como números são usados de forma estratégica e revelar os enquadramentos por trás das falas políticas. É preciso reservar boa parte do jornal para explicar didaticamente o que é fake ou fato e porquê. 

O jornalismo precisa ser transparente sobre seus métodos, abrir dados, mostrar como apurar informações e fortalecer a confiança do público. Iniciativas de jornalismo de dados e colaboração com leitores ajudam nesse processo.

A crise da desinformação é, em grande parte, uma crise de confiança. E a confiança se reconstrói com clareza, responsabilidade e compromisso público.

A verdade como responsabilidade coletiva

A minha análise das declarações de Donald Trump sobre a Venezuela mostra que a desinformação muitas vezes não opera por meio de mentiras escancaradas, mas pela construção de efeitos de verdade. Números impactantes, metáforas de guerra, promessas de democracia futura — tudo isso compõe uma narrativa coerente para quem já compartilha daquela visão de mundo.

Enfrentar a desinformação, portanto, não é apenas corrigir dados. É entender como os sentidos são produzidos, como emoções são mobilizadas e como identidades são reforçadas.

Num mundo em que “nenhum dado é dado” automaticamente, a verdade precisa ser defendida. E essa defesa não é apenas técnica ou jurídica — é também cultural, simbólica e política.

A democracia depende não só de eleições livres, mas de um espaço público onde fatos possam ser debatidos com base em evidências e responsabilidade. Quando a verdade vira campo de batalha, toda a sociedade é chamada a escolher de que lado está: o da manipulação estratégica ou o do compromisso com a realidade compartilhada.

Referências

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Autor: Luiz Cláudio Fernandes

Jornalista, escritor, professor e produtor cultural com 18 anos de experiência no ramo da Comunicação. Doutorando em Comunicação (PPGCOM/UFPA), mestre em Comunicação (PPGCOM/UFPA), especialista em Educação para Relações Étnicorraciais (IFPA). Pesquisador(a) nas áreas de Comunicação e Política, com foco em desinformação, populismo de direita radical, colonialidades e discursos de ódio racial.

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