Lembro de me questionar nas aulas de jornalismo internacional… Como as agências de notícia internacionais – como Reuters, Associated Press (AP), Agence France-Presse (AFP) – podem ter o poder de ditar tendência mundial mesmo adotando claramente um discurso enviesado e totalmente parcial? Por que esse sistema se mantém? Porque os demais veículos não se contrapõem? É preciso conhecer as minúcias do cenário e as regras do jogo internacional para poder entender essa complexa e bem arquitetada lógica de controle do discurso mundial.
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As grandes agências de notícias internacionais assumem o controle da narrativa global. Com correspondentes em zonas de guerra, câmaras exclusivas nas Nações Unidas, acesso privilegiado a governos e organizações multilaterais, elas funcionam como distribuidoras de informação primária para milhares de veículos em todo o mundo, definindo em larga medida o que o mundo “vê” e “sabe”. Mais do que informar, elas moldam a forma como os fatos são contados, escolhendo uma narrativa ocidental, capitalista e cristã; quais acontecimentos devem ganhar visibilidade e quais devem ser ignorados; quais termos são usados (ex: “terrorista” ou “combatente”? “Massacre” ou “operação militar”?); quem é a fonte confiável e quem é tratado com suspeição. Essa curadoria da realidade tem enorme poder político e simbólico.
Extrema direita e o controle do discurso mundial
Esse sistema se mantém mesmo sendo parcial porque poucos veículos no mundo têm infraestrutura para manter repórteres em campo globalmente, então, mesmo jornais nacionais ou regionais dependem dessas agências para cobrir conflitos internacionais, eleições estrangeiras, cúpulas multilaterais, etc. As redações locais, sob pressão de tempo e orçamento, reproduzem o conteúdo da agência com pouca ou nenhuma checagem adicional. O que vem da “grande agência” já chega com “carimbo de confiável”, mesmo que seja incompleto ou enviesado. As agências, por sua vez, usam uma linguagem que parece neutra, mas na prática embute valores e enquadramentos ocidentais, pró-mercado, pró-alianças ocidentais (OTAN, G7). Essa parcialidade é sutil, mas cumulativa e molda as percepções globais.
Os veículos que destoam da narrativa dominante sofrem ameaça de isolamento e correm o risco de ser taxados de parciais, ideológicos, ou até conspiratórios. Há ainda pressões políticas e econômicas em questão, pois, em vários países, o alinhamento com a diretriz editorial das grandes agências garante sobrevivência comercial ou proteção institucional. Além disso, há uma hierarquia implícita na produção do saber global: países do norte global falam e definem o mundo; países do sul global consomem e reagem.
É sabido que senso comum é de direita. Conforme Marx e Engels (2007), as ideias dominantes de um determinado momento histórico são as ideias da classe dominante ou aquelas que justificam as suas práticas (Marx e Engels afirmam que os grupos que detêm o poder material (a classe dominante) também controlam o poder simbólico e intelectual da sociedade. Logo, suas ideias se tornam o “senso comum” da época). Quando Donald Trump diz que vai fazer uma revolução do senso comum, está dizendo que vai fazer uma revolução de extrema direita, porque o senso comum pertence a esse pólo político. Na medida que o mundo que conhecemos se reconfigura — mundo do trabalho, família, democracia, território —, oferecer hoje o discurso daquilo que é mais estável na imaginação do povo — como Deus, Pátria, e Família — é mais sedutor, porque é imutável. A comunicação de esquerda, porém, é sempre mais difícil do que a comunicação do senso comum. Ela desnuda o senso comum como não comum, como defensor dos interesses dos grupos que dominam uma sociedade.
Controle da mídia: bilionários estão comprando mídia no mundo todo
Nas últimas décadas, tem se intensificado a tendência de bilionários adquirirem veículos de comunicação estratégicos, transformando o panorama global da informação. Um dos casos mais emblemáticos é o de Jeff Bezos, fundador da Amazon, que comprou o Washington Post em 2013 sob o argumento de “preservar o jornalismo tradicional”. Desde então, o jornal passou por amplas modernizações e ampliou significativamente sua presença digital. No entanto, a compra também levantou preocupações sobre a real independência editorial do veículo diante dos interesses corporativos do novo proprietário.
Outro exemplo notório é o de Elon Musk, que adquiriu o Twitter (atualmente chamado X) em 2022 e ajudou a eleger Donald Trump. Após a aquisição, a plataforma passou por uma série de mudanças estruturais, da política de moderação de conteúdo à reformulação do algoritmo, além da demissão de boa parte da equipe original. Musk justificou as mudanças com o argumento de fortalecer a liberdade de expressão, embora especialistas questionem os efeitos dessas decisões na desinformação e na qualidade do debate público.
Rupert Murdoch também construiu um império midiático comprando Fox News, Wall Street Journal e New York Post, moldando a opinião pública por décadas. Da mesma forma, a XP Investimentos comprou o portal financeiro InfoMoney, e hoje é notícia no mesmo conglomerado, ou seja, o mercado fala de si mesmo. Além disso, um dos maiores bancos do Brasil, o BTG, comprou a revista Exame e agora controla uma das marcas mais conhecidas da mídia econômica.
Esses movimentos não são isolados. Ao contrário, revelam uma estratégia mais ampla: bilionários buscam cada vez mais influenciar narrativas, moldar a opinião pública e interferir em processos políticos e econômicos. Em um mundo hiperconectado, controlar os fluxos de informação tornou-se tão poderoso e lucrativo quanto controlar fábricas, bancos ou petróleo. Afinal, quem domina a mídia, domina a versão dos fatos.
Bilionários de direita buscam confundir sobre capitalismo, socialismo e comunismo
Autores como Noam Chomsky e David Harvey argumentam que o controle do discurso econômico é uma forma de poder: manipular conceitos permite legitimar políticas e neutralizar alternativas. É por isso que elites políticas, econômicas e midiáticas frequentemente têm interesse em embaralhar ou distorcer o entendimento sobre capitalismo, socialismo e comunismo, por exemplo.
Essa distorção não é nova. Desde o século XIX, elites capitalistas consolidaram narrativas que reduzem o socialismo e o comunismo a caricaturas de autoritarismo ou ineficiência econômica, ignorando tanto as variações internas dessas correntes quanto experiências históricas que não se encaixam no estereótipo. Durante a Guerra Fria, por exemplo, tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética simplificaram o discurso para criar uma oposição irreconciliável: de um lado, “liberdade e prosperidade” capitalistas; de outro, “igualdade e segurança” socialistas, ocultando contradições internas e a existência de sistemas mistos.
O capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, livre mercado e busca do lucro como motor da atividade econômica. Adam Smith (A Riqueza das Nações, 1776) defendia que a “mão invisível” do mercado coordenaria interesses individuais em benefício coletivo; Joseph Schumpeter destacou o papel da inovação e do “destrutivo criativo”; Karl Marx, em contrapartida, criticou o capitalismo por gerar exploração e desigualdade estrutural. As características centrais do capitalismo são: produção voltada ao mercado, acumulação de capital, competição como regulador e relação assalariada como base da organização do trabalho.
Já o socialismo propõe uma maior intervenção do Estado ou da comunidade na economia, visando reduzir desigualdades e socializar parcialmente os meios de produção. Marx e Engels (Manifesto Comunista, 1848) concebiam o socialismo como uma fase de transição rumo ao comunismo. Eduard Bernstein defendeu uma via reformista e democrática (social-democracia). As características do socialismo são: planejamento econômico parcial ou total, serviços públicos universais, regulação forte do capital e redistribuição de renda por políticas fiscais.
O comunismo, por sua vez, na teoria marxista, é a fase final da evolução histórica, caracterizada por: abolição da propriedade privada dos meios de produção, desaparecimento do Estado como entidade coercitiva, produção voltada às necessidades humanas e não ao lucro, e organização social baseada na autogestão e na igualdade total. Na prática histórica (URSS, Cuba, China maoísta), o comunismo implementado assumiu formas de economia planificada centralmente, com monopólio estatal da produção e forte controle político, algo que, segundo muitos teóricos, distanciou-se do ideal marxista.
Sempre foi disseminada a ideia de que só existem duas opções — capitalismo ou socialismo — e ignora-se que, na prática, quase todas as economias contemporâneas são mistas. Na China, por exemplo, hoje o modelo de “socialismo de mercado” (termo oficial) combina planejamento estatal estratégico com ampla economia privada e integração ao comércio global. Na Noruega, há uma economia capitalista com mercado livre, mas com forte Estado de bem-estar social, altos impostos progressivos e empresas públicas estratégicas (como a estatal de petróleo Equinor. Singapura, Canadá e Alemanha também são exemplos de sistemas que conciliam alta competitividade de mercado com políticas sociais robustas. Todos esses casos mostram que o espectro econômico é contínuo e adaptável ao contexto cultural, histórico e geopolítico, não apenas uma escolha binária.
A China hoje combina rígido controle político do Partido Comunista com uma economia de mercado integrada globalmente. É a segunda maior economia do mundo e líder em exportações, resultado das reformas de Deng Xiaoping a partir de 1978, que liberalizaram setores, estimularam o privado e atraíram investimentos estrangeiros. O modelo, chamado “socialismo com características chinesas” ou “capitalismo de Estado”, mistura competição empresarial com forte intervenção estatal, incluindo controle cambial, subsídios e presença partidária em empresas. As reformas retiraram centenas de milhões da pobreza. Politicamente, o país mantém partido único, com vigilância rígida. É um país seguro, próspero e há um grande investimento no bem estar e na felicidade da população.
Vale lembrar que a visão de que só existem duas opções opostas pode ser interpretada como parte do pensamento dualista moderno-colonial. Quijano e Mignolo nos ensinam que a modernidade europeia impôs não apenas sistemas econômicos, mas também modos de pensar que privilegiam classificações binárias: civilizado/barbárie, desenvolvido/atrasado, moderno/tradicional. Essa lógica dualista simplifica realidades complexas e legitima relações de dominação, pois induz a ideia de que só existem “dois caminhos possíveis”, geralmente apresentados como mutuamente excludentes. No campo econômico, essa mentalidade é visível na Guerra Fria, quando EUA e URSS propagaram a narrativa de que o mundo deveria escolher entre capitalismo liberal e socialismo/comunismo, apagando alternativas híbridas ou locais.
Assim, a compreensão de capitalismo, socialismo e comunismo exige contextualização histórica e pluralidade de perspectivas. Na prática, sistemas mistos predominam, e experiências como as da China ou da Noruega demonstram que é possível hibridizar princípios conforme necessidades nacionais. O dualismo rígido, muitas vezes herdado de um pensamento moderno-colonial, limita a imaginação política e econômica, obscurecendo a possibilidade de arranjos econômicos policêntricos, moldados por realidades culturais e históricas específicas.





