Há um bom tempo, as extremas direitas latino-americanas participam de eventos e atividades dos centros ideológicos da direita e da extrema direita dos Estados Unidos. Seus representantes não perderam nenhum dos encontros internacionais organizados pela CPAC, a Conferência de Ação Política Conservadora [1]. Donald Trump participou frequentemente desses encontros antes de sua eleição para a presidência dos Estados Unidos em 2024.
Lideranças conservadoras e liberais latino-americanos fomentaram em seus respectivos países valores republicanos dos Estados Unidos temperados à moda Trump: defesa do Estado mínimo, inflação de discursos securitários – antimigrantes para alguns, como no Chile, por exemplo, ou antidelinquentes para outros –, demonização de pautas liberais no plano comportamental – aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo –, defesa de uma identidade ocidental, denúncia de um adversário portador de valores cosmopolitas que minam as virtudes nacionais – bolivariano, chavista, comunista, estatista, socialista. Esse inimigo poderia ser, nos Estados Unidos, o Partido Democrata e, na América Latina, os grupos membros do Foro de São Paulo e algumas associações integrantes da COPPPALC (Conferência Permanente dos Partidos Políticos da América Latina e do Caribe) [2] ou do Comitê Latino-Americano da Internacional Socialista.
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Os observadores externos aguardavam a implementação de convergências hemisféricas concretas e coordenadas após a chegada ao poder de vários participantes das reuniões da CEPAC. Em três anos, tornaram-se chefes de seus respectivos Estados, por ordem alfabética dos países, Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Daniel Noboa no Equador, Donald Trump nos Estados Unidos, Santiago Peña no Paraguai, Nasry Asfura em Honduras e Nayib Bukele em El Salvador.
Outros, sem qualquer ligação com a extrema direita, aproximaram-se dela no exercício das suas funções, como o presidente boliviano Rodrigo Paz, o seu homólogo costarriquenho Rodrigo Chávez ou José Raúl Mulino, no Panamá. No entanto, essa aproximação, que parecia óbvia, é parcial e relativa. O argentino Milei certamente iniciou um desmantelamento do Estado. O poder público renunciou voluntariamente a proteger os mais fracos, a preservar a proteção social, a educação escolar e universitária, e abandonou seus chefes de empresas industriais. É verdade que, no Chile, José Antonio Kast centrou a sua campanha eleitoral na expulsão de 330 mil imigrantes, convidados a fazer as malas, se quiserem partir em boas condições, antes da sua chegada ao poder, em 11 de março de 2026. Ele fez duas viagens que deveriam lhe fornecer um kit radical pronto para montar, uma à Argentina, para ver o modelo antiestatal de Javier Milei in situ e outra a El Salvador, para seguir o exemplo do método Bukele de combate à delinquência. Daniel Noboa, no Equador, também tomou Bukele como exemplo de resolução rápida de questões de segurança. Assim como Donald Trump, ele virou a mesa do Direito Internacional ao violar, em 5 de abril de 2024, a imunidade da Embaixada do México para retirar à força um opositor, o vice-presidente da gestão anterior, Jorge Glass.
A chegada de Donald Trump à Casa Branca desestabilizou e desvalorizou fortemente essa unidade de fachada. É verdade que Donald Trump ajudou seus amigos em dificuldades. Ele sancionou o juiz e o ministro da Justiça brasileiros que colocaram seu “amigo”, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sob investigação por participação em uma tentativa de golpe de Estado. É verdade que ele interveio com sucesso em duas campanhas eleitorais para apoiar publicamente seu amigo argentino Javier Milei e Nasry Asfura, em Honduras. É verdade que ele removeu o inimigo número um da extrema direita latino-americana e de alhures, o “chavista” bolivariano Nicolás Maduro.
Mas isso não é suficiente. Como nacionalista coerente, Donald Trump quer explorar tudo o que for possível de chavistas e de outros estatistas de esquerda ou de centro, mas também de seus “amigos” ideológicos da extrema direita e da direita latino-americanos. Ele quer que todos no hemisfério ocidental entendam que ele é um Primus inter Pares, dotado de uma autoridade superior e derrogatória.
Avaliemos. Desde que assumiu o poder, ele tributou todas as exportações latino-americanas para os Estados Unidos, tanto as dos “amigos” quanto as dos “inimigos”. Ele enche, dia após dia, aviões fretados com residentes latino-americanos, sejam eles cidadãos da Venezuela ou do Equador para expulsá-los dos EUA. Sua polícia tentou forçar a porta do consulado do Equador em Mineápolis, em 27 de janeiro. Predador assumido, ele reivindica um bem, um recurso, sempre que considera que isso é do interesse dos Estados Unidos. José Raúl Mulino, chefe de Estado do Panamá, é um ex-ministro do presidente Endara, que foi empossado em 1989 como presidente do Panamá em uma base militar norte-americana após o sequestro, a prisão e o julgamento na Flórida do presidente Manuel Noriega. Apesar disso, foi obrigado a rescindir o contrato da empresa chinesa Hutchison Whampoa, importante investidora em serviços marítimos, ativa desde 2000, após a devolução da Zona do Canal às autoridades panamenhas, antes ao longo de quase um século sob a custódia dos EUA, nas duas extremidades do canal.
Por fim, e logicamente no contexto do egoísmo nacionalista exclusivo defendido por Donald Trump, a ideologia compartilhada não tem peso diante dos interesses. O inquilino da Casa Branca assinou com a China um acordo comercial que afetará as exportações de soja brasileira, mas também argentina, para Pequim. Com Jair Bolsonaro preso, ele o abandonou para cortejar o petista Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil. A prisão de Nicolas Maduro, presidente da Venezuela, encarcerado em Nova Iorque e indiciado nos Estados Unidos, não abriu o palácio de Miraflores à opositora de extrema direita María Corina Machado, que reivindica para si os valores norte-americanos. Donald Trump privilegiou a perpetuação do regime, único capaz, segundo ele, de lhe garantir acesso exclusivo aos recursos petrolíferos do país.
Se Donald Trump manteve o rumo, seus “amigos” ou ainda “amigos” ideológicos estão perdendo o seu. Alguns aceitaram sua nova vida de soberania limitada, como o argentino Javier Milei ou o salvadorenho Nayib Bukele. Outros questionam e até mesmo fazem alianças inesperadas com seus antigos inimigos regionais. O Equador, do presidente Noboa, cujo diplomata foi ameaçado em 27 de janeiro pela polícia migratória dos Estados Unidos, ICE, emitiu um protesto oficial. O Panamá, assim que as luzes de Davos se apagaram, organizou seu Davos latino-americano, nos dias 28 e 29 de janeiro [3]. Sete chefes de Estado da região – Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guatemala e Jamaica –, tanto da direita quanto da esquerda, participaram do evento. Nessa ocasião, foram divulgadas entrevistas aparentemente incompatíveis: a do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e a do presidente eleito chileno José Antonio Kast. Os sete chefes de Estado, de forma simbolicamente significativa, imortalizaram esta cúpula “econômica” visitando uma das eclusas do Canal. Os rejeitados estão em dúvida.
A extrema direita brasileira busca, em meio à desordem, um “delfim” para Jair Bolsonaro. Na Venezuela, María Corina Machado aceitou o encontro não oficial que Donald Trump lhe concedeu. Ela “ofereceu” a ele seu Prêmio Nobel da Paz, para grande desgosto do Comitê Norueguês. Enrique Capriles, opositor de centro-direita silenciado pela mídia oficial venezuelana e pela mídia internacional que apoiava María Corina Machado, aproveitou a brecha.
Se todos os latino-americanos, desde 20 de janeiro de 2025, foram colocados sob estado de soberania limitada por Donald Trump, de forma pública e oficial, essa situação é incontestavelmente malvista por aqueles que se consideravam seus “amigos” ou, pelo menos, seus aliados naturais e privilegiados, os representantes da extrema direita. No entanto, eles estão presos na armadilha das contradições de seu nacionalismo [4] à americana.
Texto publicado originalmente em francês, em 29 de janeiro de 2026 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Amérique latine les extrêmes droites piégées par Donald Trump”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/131457. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.
Notas
[1] A CPAC foi criada em 1974. O presidente Ronald Reagan proferiu o discurso de abertura.
[2] A COPPALC foi criada em 1979 em Oaxaca (México) por iniciativa do PRI (Partido Revolucionário Institucional).
[3] O Fórum Econômico Internacional da CAF. A CAF é o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe.
[4] “La mano en la trampa”, a mão na armadilha, filme do diretor argentino Leopoldo Torre-Nilson (1961).
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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Fonte: Observatório da Imprensa





